March 27, 2026

Fui um dos 5 primeiros americanos a obter a residência brasileira de investidor em startups. Isto é o que realmente aconteceu.

Este artigo é a continuação da minha história sobre por que escolhi o Brasil e decidi criar a StartBrazil, escrita em dezembro de 2025, antes de eu ter obtido minha residência permanente. Você pode ler o primeiro artigo aqui.

Um terremoto e um deferimento

2 de janeiro de 2026 é uma data que vou lembrar pelo resto da vida.

Naquela manhã, eu voltava da Cidade do México para Nova York. Uns quinze minutos antes do embarque, o terminal do aeroporto ficou em silêncio, todos os celulares dispararam alarmes ao mesmo tempo e o chão começou a tremer — um terremoto de magnitude 6,5 atingiu a costa do Pacífico. Foi uma experiência nova para mim, mas nosso voo quase não atrasou. Quando cheguei em casa, estava exausto. Mesmo assim, por impulso, abri o sistema público do governo brasileiro para acompanhar meu pedido de residência.

Eu não imaginava que algo pudesse acontecer no dia seguinte ao Ano-Novo, mas, afinal, era uma sexta-feira — em tese, um dia útil. Quase fechei a página, até reler as atualizações. Havia um registro datado de 2 de janeiro de 2026: “Proposta de Deferimento”.

Fiquei olhando para a tela. Cinco meses de idas e vindas no processo, três exigências, uma correria de última hora para conseguir a assinatura de um documento dias antes do Natal — e eu ainda não tinha plena confiança de que tudo aquilo daria certo. E ali estava. Um momento que muda uma vida.

Seis horas depois, acordei com a notícia de que os Estados Unidos haviam lançado uma operação militar na Venezuela. Dizer que eu estava numa montanha-russa emocional seria pouco. Eu tinha acabado de conquistar meu ponto de apoio permanente na América do Sul e, horas depois, aquilo. Mas não podia me deter nisso: pela mecânica particular do meu caso, eu precisava fazer as malas imediatamente. Meus pais perguntaram se eu não tinha receio de viajar para a América do Sul com o mundo daquele jeito. Respondi que o meu destino, Florianópolis, ficava tão ao sul que estava apenas 150 milhas mais perto de Caracas do que eles, em Omaha, no Nebraska. Isso ajudou a tranquilizá-los.

Uma janela se fechando

Dez dias depois daquela descoberta de madrugada, eu estava num avião para Florianópolis. E com razão: poucos dias depois de eu chegar ao Brasil, o presidente Trump proibiu a emissão de vistos de imigrante para 75 países, incluindo o Brasil. Isso era especialmente preocupante porque, nos Estados Unidos, os vistos de investimento são classificados como vistos de imigrante — ou seja, o meu país passava a bloquear a entrada de investidores estrangeiros já qualificados. Como alguém que havia feito um investimento no Brasil, temi que o Brasil pudesse adotar medidas de reciprocidade, como é a norma na diplomacia. Concluir meu registro o quanto antes virou uma missão crítica.

Aqui vai algo que não estava totalmente claro para mim: o deferimento pela Coordenação-Geral de Imigração Laboral (CGIL), do Ministério da Justiça, é apenas o começo. Nesse estágio, você tem a residência deferida, mas ainda não é residente e ainda não tem acesso aos direitos correspondentes. Até se registrar presencialmente na Polícia Federal e receber a CRNM, a carteira de identidade de residente — algo como o “Green Card” americano —, você não tem status formal.

O registro em São Paulo

Escolhi me instalar em Florianópolis porque a cidade já era o centro da minha história no Brasil. O que eu não havia previsto era uma espera de seis meses na unidade local da Polícia Federal, que cuida dos trâmites migratórios e emite a CRNM. Florianópolis atrai nômades digitais, aposentados e migrantes da região, e a capacidade de registro de estrangeiros estava sobrecarregada.

Eu tinha feito mala para três semanas e ainda mantinha um apartamento em Nova York. Depois de semanas de incerteza sobre quando eu teria retorno, outros americanos que passaram por situações parecidas me indicaram São Paulo. Por ser a maior cidade do país, com um grande aeroporto internacional, é onde há mais capacidade de atendimento a estrangeiros e os agendamentos disponíveis mais próximos.

Em 12 de fevereiro, um mês depois de chegar ao Brasil, entrei na superintendência da Polícia Federal na maior cidade das Américas. Era um prédio imenso, de vários andares, com uma fila que dobrava o quarteirão às 8h30 da manhã. Meu atendimento estava marcado para as 9h, e fiquei feliz por ter chegado cedo.

Lá dentro, o processo era muito bem estruturado, com vários guichês para organizar seus documentos e encaminhar você adiante. Depois de passar por três guichês, entrei numa enorme sala de espera de estrangeiros fazendo o registro de residência no Brasil. Devia haver pelo menos 200 pessoas ali.

Fui chamado em menos de uma hora. Uma agente processou meu caso em menos de quinze minutos. Apresentei a documentação básica, assinei dois documentos, tive as digitais coletadas digitalmente (a parte mais difícil e demorada), fiz uma assinatura eletrônica e tirei uma foto.

Depois de cinco meses de incerteza, avançando no escuro, com dúvidas genuínas em vários momentos sobre se aquilo tudo daria certo — vinte minutos e um aperto de mão, e estava feito. A agente sorriu e me disse: “Parabéns.”

Ela me entregou um protocolo, um documento de identidade provisório que serviria como minha identificação legal até a chegada da CRNM definitiva, em cerca de 30 dias. Com aquele único pedaço de papel, tudo mudou. Eu tinha em mãos um documento válido até 2035 confirmando que eu era residente permanente do Brasil.

Do prédio da Polícia Federal, peguei um Uber até o cartório para assinar uma procuração para a retirada da minha CRNM dali a 30 dias, porque eu já estaria fora do país. Com o protocolo, eu podia sair do Brasil e voltar, mas, uma vez emitida a carteira, só poderia reentrar com o documento físico. Então precisaria de alguém que a enviasse para mim no exterior.

Sete anos ouvindo “não”

Tenho dupla cidadania, americana e europeia. Lembro bem de como foi depois do atendimento do meu pedido de cidadania em Luxemburgo, em janeiro de 2014. Naturalmente, a primeira coisa em que você pensa ao concluir esse processo é como se estabelecer de verdade no país — e o primeiro lugar que vem à cabeça é o banco. Fui recusado em cerca de uma dúzia de bancos em janeiro de 2014. O FATCA, a lei americana que obriga instituições financeiras estrangeiras a reportar correntistas americanos, tinha me tornado radioativo. Nos anos em que vivi no exterior desde que a lei entrou em vigor, em 2013, país após país, banco após banco, a resposta era sempre a mesma: cidadão americano? Não compensa o custo de compliance. Mesmo com o passaporte europeu, não fazia diferença.

Por isso, não me surpreendi tanto quando o primeiro banco, o Itaú, me recusou. E nem foi por eu ser cidadão americano: disseram que, por política interna, só aceitavam a CRNM definitiva, não o protocolo.

O segundo banco, o Bradesco, aceitou meu protocolo. Foi um processo formal, de pegar senha e passar de mesa em mesa, mas todos foram gentis e pacientes. Precisei apresentar comprovante de residência e o protocolo; fora isso, abrir a conta foi um procedimento direto de assinar os contratos e configurar o aplicativo no celular. Nem sequer pediram meu passaporte americano. “Esse não é um documento de identificação aceito aqui”, me disseram.

Quero ser honesto sobre o que aconteceu em seguida. Eu me emocionei. Depois de sete anos ouvindo “não” em um continente inteiro, um banco brasileiro olhou para o meu protocolo de residência e simplesmente disse “sim”. Sem formulários especiais, sem um longo interrogatório de compliance. Pegaram meu papel e abriram a conta.

Para quem nunca lidou com o FATCA no exterior, isso talvez pareça banal. Para os americanos que leem isto e viveram essa realidade: vocês sabem exatamente o que senti. O FATCA teve um papel significativo nesse processo desde o início; trazer meu investimento para o Brasil, logo de partida, exigiu bastante documentação de compliance. Mas agora que eu estava no sistema, eu estava de fato no sistema.

Construindo uma ponte antes de precisar dela

Não vou fingir que o processo foi simples. Mas eis o que posso dizer do outro lado: o caminho da residência brasileira para investidores em startups é real, funciona, e o que espera do outro lado vale o esforço da travessia. Menos de vinte pessoas o obtiveram nos últimos cinco anos, o que significa que existe pouquíssima informação confiável disponível — e muito conselho ruim. É exatamente por isso que a StartBrazil existe.

O mundo no início de 2026 é diferente do que era um ano atrás. Para os americanos, em particular, certezas que pareciam permanentes — a de que nosso passaporte seria sempre o mais forte, a de que as fronteiras estariam sempre abertas para nós, a de que o capital circularia livremente — estão sendo testadas em tempo real. Eu sei porque vivi isso. O terremoto que sacudiu o chão na Cidade do México naquela manhã não foi a única coisa que abalou minha sensação de estabilidade em 2026.

Se você é empreendedor, investidor ou simplesmente alguém pensando no que uma segunda residência poderia significar para a sua família e o seu futuro, olhe com seriedade para o Brasil. Não porque o processo seja fácil. Mas porque o que ele abre é extraordinário. Uma conta bancária quando a Europa diz não. Um financiamento imobiliário quando o senso comum diz que é impossível. Um ponto de apoio na maior economia da América Latina, num momento em que ter opções deixou de ser luxo e virou necessidade.

Esta não é uma história sobre deixar os Estados Unidos. É uma história sobre construir uma ponte para outro lugar, antes de precisar dela.

Daniel Atz é o fundador da StartBrazil. Ele é um dos primeiros americanos a concluir o caminho da residência permanente brasileira para investidores em startups.

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