
O Brasil Tem Uma das Melhores Leis de Imigração para Startups do Mundo. Quase Ninguém Sabe.
No dia 2 de janeiro de 2026, eu estava em casa em Nova York, exausto depois de um voo da Cidade do México. Quinze minutos antes do embarque, um terremoto de magnitude 6.5 tinha sacudidoo terminal. O voo atrasou pouco. Quando cheguei, já era quase meia-noite.
Por impulso, abri o sistema de acompanhamento do governo brasileiro onde eu monitorava meu pedido de residência permanente. Dia 2 de janeiro — sexta-feira, tecnicamente dia útil,mas ninguém trabalha no dia seguinte ao Ano Novo. Eu quase fechei a página. Aí li de novo. Tinha uma entrada daquele dia: "Proposta de Aprovação."
Cinco meses de burocracia, três pedidos de evidência, e uma dúvida real, em vários momentos, sobre se ia dar certo. E ali estava. Uma aprovação de residênciapermanente no Brasil pela via de investidor em startup — um caminho que, em cinco anos de existência, menos de vinte pessoas no mundo inteiro tinham completado.
Na manhã seguinte, acordei com a notícia de que os Estados Unidos tinham lançado uma operação militar na Venezuela. O país onde nasci acabava de colocarforças militares no continente para onde eu estava indo morar. Fiz as malas assim mesmo.
Mas essa história não começa em janeiro de 2026. Começa doze anos antes, no banco de trás de um táxi.

O Rádio Desligado
Em março de 2014, no banco de trás de um táxi entre o centro de São Paulo e Guarulhos, eu tentava falar português com o motorista. Tinha chegado ao Brasiltrês semanas antes sem saber uma palavra. Nenhuma. Mas o cara teve paciência. Desligou o rádio. Me corrigiu. Me ensinou a diferença entre ser e estar. E a gente foi assim, por uma hora, no trânsitoda Marginal.
Eu já tinha morado em vários países nessa altura. Estudei em Pequim, morei em Paris. E posso dizer com honestidade: nunca encontrei um povo tão naturalmente dispostoa ajudar um estrangeiro a aprender sua língua. Em outros lugares, você erra uma conjugação e as pessoas mudam para o inglês. No Brasil, o motorista desliga o rádio.
Aquele táxi era uma despedida. Eu estava voltando para Nova York. Mas algo tinha ficado. Uma afinidade que eu não conseguia explicar direito. Voltei, me matriculei em aulas deportuguês, e cheguei a aceitar uma vaga numa empresa que ia me transferir para São Paulo. A empresa não foi bem. A transferência nunca aconteceu.
Por volta da mesma época, eu tinha recuperado a cidadania luxemburguesa pela minha bisavó, nascida em Esch-sur-Alzette, e recebido um passaporte europeu que me dava o direitode morar em trinta países. Escolhi ir para a Europa primeiro — e em abril de 2016, curiosamente, a primeira coisa que fiz foi um programa intensivo de português em Lisboa. Continuei ligado à línguamesmo do outro lado do Atlântico.
Passei a década seguinte vivendo entre a Europa e os Estados Unidos. Fundei a LuxCitizenship, uma empresa de cidadania que atendeu mais de 3.500 americanos. Trabalhei com startups naCâmara de Comércio Belgo-Americana em Nova York. Dirigi um documentário sobre a diáspora luxemburguesa na Argentina. E durante todo esse tempo, continuei estudando português e voltando ao Brasil.Em 2020, no início da pandemia, a conexão se aprofundou: me juntei a brasileiros com dupla cidadania luxemburguesa numa campanha para mudar a lei de nacionalidade de Luxemburgo — mais de sessenta pessoasnos dois países gravaram vídeos, e a campanha foi coberta pela mídia nacional. A partir dali, comecei a pesquisar seriamente a comunidade brasileira, lancei um site em português, e mais de duzentosduplos cidadãos responderam a uma pesquisa aberta.
Em 2023, quase dez anos depois daquele táxi, voltei ao Brasil.

O Que Florianópolis Não Sabe Sobre Si Mesma
Eu fui por causa da diáspora luxemburguesa. Santa Catarina concentra a maior comunidade de duplos cidadãos luxemburgueses por ancestralidade do mundo — mais de vinte milpessoas. Coordenei a primeira visita de políticos luxemburgueses para conhecer essa comunidade. Falei em português para quinhentas pessoas ao lado do Governador do estado e do Prefeito de Florianópolis.
Mas o que me pegou não teve nada a ver com Luxemburgo.
Florianópolis se chama de Ilha do Silício. Eu já vi muitas cidades se darem nomes parecidos em vários continentes. Geralmente é mais ambiçãodo que substância. Florianópolis é diferente. E não é uma diferença genérica — é específica. O que eu vi na ACATE não foi um parque tecnológicode fachada, foi uma rede real onde empresas e universidades dividem problemas concretos. O Sapiens Parque não é um prédio bonito com salas vazias, é um lugar onde gente trabalha junto. A integraçãoentre o poder público, a academia e as empresas — essa coordenação que todo mundo fala mas quase ninguém faz funcionar — ali funciona. Eu passei anos ajudando startups europeias em cidadesque gastam três vezes mais tentando construir o que Florianópolis já tem.
E percebi algo que me surpreendeu: aquele ecossistema tem todos os ingredientes para atrair investimento estrangeiro qualificado em inovação. E quase não o faz. Nãopor falta de mérito. Por falta de conexão com o mundo lá fora. O fundador em Recife, a incubadora em Belo Horizonte, a aceleradora em Campinas — todos eles têm o mesmo problema. O Brasil construiuecossistemas de inovação reais. Mas para o investidor estrangeiro que está sentado em Nova York ou Berlim, esses ecossistemas não existem. Não porque são fracos. Porque sãoinvisíveis.
Voltei em 2024 para palestrar. Em 2025, falei no Hacktown. Três anos em palcos brasileiros. E em algum momento, parei de pensar em Florianópolis como assunto de pesquisa. Quismontar um escritório de P&D ali. Quis ficar. Eu já estava construindo no Brasil — explorando a residência por investimento, enfrentando os problemas de juntar todas as peças — masainda não tinha um nome para o que estava fazendo.
Aí, em 2025, os Estados Unidos bombardearam a instalação nuclear do Irã.
Em novembro de 2016, quando o site de imigração do Canadá caiu por excesso de acessos de americanos, eu senti o chão mudar. Uma semana depois, fundei a LuxCitizenship.Agora, quase dez anos depois, durante o pronunciamento de Trump na Casa Branca — o primeiro na história americana moderna com múltiplas pessoas diante da câmera, um espetáculo deliberado anunciandoo que ele chamou de uma mudança na história do mundo — o nome StartBrazil me veio à cabeça. Comprei o domínio alguns dias depois. Eu sabia que as pessoas iam começar a olharpara a América do Sul.

19 Pessoas em Cinco Anos
Agora vem o dado que deveria incomodar todo mundo que trabalha com inovação neste país.
A Resolução Normativa 13/2017, Art. 3º, permite a empreendedores estrangeiros obter residência permanente investindo R$ 150 mil em startups inovadoras. R$ 150 mil.É menos que o preço de um estúdio em Lisboa. Menos que muitos carros importados vendidos em São Paulo. A legislação é sólida, é moderna, e é uma das maisacessíveis do continente.
Em cinco anos, 19 pessoas no mundo inteiro a usaram.
Eu sei disso porque, quando minha própria aprovação apareceu no sistema do governo, percebi que todos os casos são eventualmente publicados no Diário Oficialda União. Contratei um pesquisador brasileiro para extrair esses dados sistematicamente, caso a caso, publicação a publicação. O resultado: 512 aprovações de residênciapor investimento no Brasil em 2025, cobrindo os três caminhos — imobiliário, empresarial e startup — de 45 países de origem, em 15 estados brasileiros, abrangendo mais de cem áreas deatividade econômica. É, até onde sei, a análise mais completa já feita sobre investimento estrangeiro individual no Brasil pela lente migratória.
Os números contam uma história que merece atenção. Os europeus — americanos, alemães, franceses, italianos — dominam o caminho imobiliário.Os chineses dominam o empresarial, com quase 40% das aprovações. O investimento estrangeiro individual no Brasil é real, diverso, e está crescendo.
Mas o caminho de startup — o mais inovador dos três, o que mais interessa aos ecossistemas brasileiros de inovação — é praticamente invisível.19 aprovações. Não porque a lei falhe. Porque não existe informação confiável, não existem intermediários que operem em toda a cadeia, e não existe conexãoentre o investidor estrangeiro e o ecossistema brasileiro que deveria recebê-lo.
Quando decidi usar esse caminho, não encontrei quem me ajudasse com o processo completo — constituição de empresa, transferência de capital, compliance bancário,Banco Central, requisitos de inovação, adjudicação migratória. Para americanos, com FATCA e as regulações do Tesouro, a complexidade é ainda maior. Fiz sozinho. E quandoterminei, decidi construir o que faltou.

O Bradesco
Uma última história. Talvez a que mais importa.
Sou duplo cidadão americano e europeu. Desde que a lei americana FATCA entrou em vigor, obrigando bancos estrangeiros a reportar correntistas americanos, fui recusado por bancos em praticamentetoda a Europa. Sete anos. País após país. Passaporte europeu na mão, não fazia diferença nenhuma. A resposta era sempre a mesma: cidadão americano? Não vale o custo decompliance.
Em fevereiro de 2026, com meu protocolo de residência permanente, entrei no Bradesco em São Paulo. Não pediram passaporte americano — disseram que não era documentoválido no Brasil. Apresentei o protocolo. Sentei. Assinei. Configurei o app.
Eu passei boa parte dos meus trinta anos na Europa sem conseguir abrir uma conta em banco. Fui rejeitado com passaporte europeu em mãos, em países onde eu tinha direito legalde morar. E o Brasil me disse sim em quinze minutos.
Eu chorei. Não tenho vergonha de dizer.
A StartBrazil
A StartBrazil existe porque essa legislação merece funcionar.
Para investidores estrangeiros, a gente funciona como concierge de ponta a ponta. Mas a metade mais importante do negócio está do lado brasileiro: estamos construindo uma redede startups verificadas — fundadores que já fundaram algo antes, empresas com tração de verdade, parceiros institucionais sérios. Incubadoras, aceleradoras, governos estaduais que queiramreceber capital estrangeiro qualificado. O capital fica na empresa por três anos para validar a residência. Não é dinheiro de passagem. É compromisso.
O site em português da StartBrazil existe para que qualquer instituição brasileira possa fazer due diligence completa sobre o negócio e sobre mim. Transparênciaaqui não é estratégia de comunicação. É pré-requisito para operar neste espaço.
O governo federal, aliás, tem caminhado na mesma direção — com iniciativas recentes para simplificar a jornada do investidor estrangeiro no Brasil. A legislaçãosempre foi forte. A infraestrutura está começando a acompanhar.
O Rádio
Em março de 2014, um motorista de táxi em São Paulo desligou o rádio para me ensinar português. Em 2016, eu estava em Lisboa ainda tentando aprender. Em 2020,sessenta brasileiros e americanos gravaram vídeos comigo pedindo a um parlamento europeu para mudar uma lei. Em 2023, eu estava num palco em Florianópolis. Em 2025, assistindo a um pronunciamento na Casa Branca,um nome me veio à cabeça. E em janeiro de 2026, olhando para uma tela em Nova York depois de um terremoto, descobri que o Brasil tinha dito sim.
Doze anos entre o primeiro e o último desses momentos. E em todos eles, a mesma coisa: alguém no Brasil desligando o rádio para me ajudar.
O meu português ainda tem sotaque. Provavelmente sempre vai ter. Mas é meu. Aprendi no táxi, pratiquei em palcos, e agora escrevo nele. E se essa história serve paraalguma coisa, espero que sirva para lembrar que o Brasil construiu algo que o mundo ainda não descobriu — e que talvez os primeiros a precisarem descobrir sejam os próprios brasileiros.
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